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França condena ex-cirurgião pedófilo a 20 anos de prisão por abusar de quase 300 pacientes
A Justiça francesa condenou, nesta quarta-feira (28), o ex-cirurgião Joël Le Scouarnec à pena máxima de 20 anos de prisão por estuprar e agredir sexualmente quase 300 pacientes, a maioria quando eram menores de idade.
O julgamento, que começou em fevereiro, chocou o país meses após outro caso "fora do comum": o estupro em série de Gisèle Pelicot, que resultou na condenação de 51 homens.
"Levou-se em consideração que os atos cometidos foram particularmente graves devido ao número de vítimas, à sua pouca idade e ao caráter compulsivo" do acusado, disse a presidente do tribunal de Vannes, Aude Buresi, ao ler o veredicto.
Após o anúncio do veredicto, um dos advogados do ex-cirurgião, Maxime Tessier, informou que seu cliente não vai apresentar recurso e que "nunca teve intenção" de fazê-lo.
A Promotoria havia pedido 20 anos para esse "diabo" de "jaleco branco" e outras medidas menos comuns, como o confinamento em um centro de tratamento para monitoramento adicional após o cumprimento da pena.
No entanto, o tribunal de Vannes, no oeste da França, impôs uma pena mais leve, ao destacar sua "vontade de se redimir" e sua idade. O homem de 74 anos poderá, portanto, obter liberdade condicional após cumprir dois terços da pena de 20 anos.
A justiça também impôs 15 anos de monitoramento sócio-judicial, o que inclui, em especial, se submeter a um tratamento e a proibição permanente de exercer a medicina ou desenvolver qualquer atividade que envolva menores.
O veredicto foi recebido com gritos de "Que vergonha de justiça!" na sala de transmissão reservada às vítimas.
Algumas, que se reuniram em frente ao tribunal, abraçaram-se, chorando. "Que decepção", comentou a repórteres Manon Lemoine, porta-voz de um coletivo de vítimas de Joël Le Scouarnec.
Outra vítima, Amélie Lévêque, afirmou se sentir "humilhada por este veredicto".
Ao contrário, Cécile de Oliveira, que integra a equipe de advogados das partes civis, considerou que o veredicto se "adapta de forma muito fina à situação psiquiátrica de Le Souarnec".
- Nova investigação -
Durante o julgamento, Joël Le Scouarnec declarou-se culpado de todos os atos cometidos em hospitais entre 1989 e 2014, tanto estupros quanto agressões sexuais. Na época, 256 desses pacientes tinham menos de 15 anos.
No entanto, durante o julgamento, ele admitiu outros "abusos sexuais" contra sua neta e assumiu a responsabilidade pelo suicídio de duas de suas vítimas.
O ex-cirurgião cumpre 15 anos de prisão desde 2020 por estupros e agressões sexuais de duas sobrinhas, de uma jovem paciente na década de 1990 e de uma vizinha de 6 anos em Jonzac em 2017.
Após a denúncia desta última, os investigadores descobriram "cadernos" na casa do réu nos quais ele registrava suas agressões em detalhes, juntamente com milhares de imagens de pornografia infantil e dezenas de bonecas, entre outros itens.
Em 20 de março, a Promotoria anunciou a abertura de uma nova investigação sobre "vítimas não identificadas ou recém-declaradas" do ex-cirurgião.
- "Periculosidade muito grande" -
Le Scouarnec nasceu em Paris, filho de pai marceneiro e mãe zeladora. O mais velho de três filhos, era um aluno excelente, mas bastante solitário, que sonhava em se tornar cirurgião, o que conquistou na década de 1980.
"Este homem é um enigma", disse ao tribunal Jean-Jacques Dumond, um dos psiquiatras que o examinaram e não encontraram a causa para sua pedofilia. Sua "periculosidade é muito grande", acrescentou sua colega, Isabelle Alamone.
A justiça o descobriu em 2004. Seu cartão bancário, que ele usava para acessar sites de pornografia infantil, o denunciou, e um tribunal de Vannes o condenou em 2005 a quatro meses de prisão, com suspensão da pena.
Essa condenação por posse de imagens de pornografia infantil não o impediu de continuar a carreira como cirurgião em vários hospitais até 2017, quando se aposentou.
- Frustração -
Os meses de audiências foram marcados pelo horror diante dos atos do ex-médico e pela frustração das vítimas pela falta de ação das autoridades médicas e judiciais.
Um coletivo de vítimas, que denunciou o "silêncio político" durante o julgamento, anunciou uma reunião, em 11 de junho, com o ministro da Saúde, Yannick Neuder.
Este último prometeu, em declarações à rádio France Info, trabalhar para evitar que estes fatos se repitam. "Como pudemos chegar a uma situação como esta?", perguntou-se.
O processo foi ofuscado pelas acusações contra o primeiro-ministro, François Bayrou, por supostamente ter acobertado casos de violência em um colégio católico, o que ele nega.
P.Silva--AMWN