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ABL tenta mudar imagem de um 'clube de homens brancos'
Em uma noite quente no Rio de Janeiro, a nata da cena literária e cultural preenche os salões palacianos da Academia Brasileira de Letras (ABL), vestidos com elegante fardão verde com detalhes dourados.
Eles são chamados de "imortais": 40 dos escritores, acadêmicos, artistas e intelectuais mais renomados do Brasil.
Apesar do apelido, todos têm idade avançada, com uma média de cerca de 80 anos. Além disso, a maioria é composta por homens brancos, o que causa controvérsias em um país diverso e multicultural.
Fundada em 1897, a ABL é a guardiã da língua e da literatura brasileiras. Conhecida por sua sede majestosa e rituais cerimoniais, assemelha-se à prestigiosa Academia Francesa, da qual foi inspirada.
A noite de gala mencionada acima aconteceu em abril, por ocasião da cerimônia de posse de seu primeiro membro indígena, o escritor Ailton Krenak.
Rompendo com a tradição, Krenak, de 70 anos, usava um lenço de tecido na cabeça e foi recebido por cantores e dançarinos indígenas ao ser declarado um "imortal" diante de uma plateia lotada.
"Estamos virando a página", declarou aos jornalistas antes da cerimônia. "A Academia Brasileira de Letras é uma instituição centenária, e ela nunca se abriu para essa perspectiva de povos originários, de outras línguas, outras culturas que não seja lusófona", destacou.
Alguns acreditam que a instituição, responsável por decidir as normas do português brasileiro, precisa mudar de forma mais rápida.
"Depois de 524 anos, já era tempo de nós também ocuparmos esse lugar", disse um dos presentes, o líder indígena e linguista Urutau Guajajara, de 63 anos, referindo-se a 1500, o ano em que os exploradores portugueses chegaram ao que hoje é o Brasil.
"É um lugar totalmente elitizado, de dominação eurocêntrica", criticou.
- País dividido -
Apenas cinco dos 40 membros da Academia são mulheres. E apenas dois são negros, sendo que 56% da população se identifica como preta ou parda.
Os "imortais" ocupam seus cargos vitalícios. Quando um deles morre, os demais elegem seu sucessor.
O jornalista Merval Pereira, atual presidente, deseja que a Academia seja mais representativa do Brasil. Quando assumiu o cargo em 2022, a instituição admitiu a atriz Fernanda Montenegro, indicada ao Oscar, e o icônico cantor e compositor negro Gilberto Gil.
Os críticos ficaram decepcionados.
"Três homens negros, nenhuma mulher negra: o racismo da Academia Brasileira de Letras", lamentou a jornalista Thais Rodrigues em um artigo publicado no portal Alma Preta, lembrando que a ABL ignorou a escritora negra Conceição Evaristo em 2018.
Pereira, de 74 anos, vê com receios que a instituição pratique uma "política identitária" em um país profundamente dividido entre os apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu antecessor Jair Bolsonaro.
A Academia, financiada principalmente pelo aluguel de um prédio adjacente à sua sede, não tem afiliação política ou governamental.
"Tem gente que liga o identitarismo à esquerda. Mas a gente não faz identitarismo aqui. O que importa é a obra. A gente não elege por ser negro, ou branco, ou índio", declarou Pereira à AFP.
"Tem a preocupação de representar a diversidade da cultura brasileira, e do brasileiro em si", acrescentou.
- Histórico de embranquecimento -
Embora muitos brasileiros não saibam, o fundador da Academia era, na verdade, um homem negro: o renomado escritor Joaquim Maria Machado de Assis.
Nascido em 1839, quase meio século antes da abolição da escravidão no Brasil, Machado de Assis, neto de escravizados, foi um gênio literário autodidata que contribuiu para transformar o romance moderno.
Por anos, os retratos feitos dele minimizaram seus traços negros, inclusive o busto no saguão da ABL.
Para Pereira, a Academia agora trabalha para reverter esse "embranquecimento".
Um exemplo é o avatar digital animado de Machado de Assis que interage através de inteligência artificial com os visitantes no edifício neoclássico da Academia.
Cerca de vinte alunos do ensino médio do município de Nova Iguaçu, na periferia do Rio, se reúnem em torno da tela, que projeta o personagem, agora representado com pele escura.
"Como brasileiro de origem negra que lutou contra a adversidade ao longo da vida, acredito firmemente que a valorização da diversidade é essencial", diz o avatar.
"Acredito que a ABL (...) tenha a responsabilidade de trabalhar ativamente para ampliar a diversidade em seu corpo de membros", acrescenta.
Além dos discursos gerados por IA, a professora Ana Luisa Guimarães, de 39 anos, afirmou que incentivaria seus alunos a refletirem criticamente sobre a visita.
"Se a gente pensar que a gente teve o movimento modernista, que era uma escola literária para a gente ter uma literatura brasileira, então a gente deveria estar cheio hoje de quê? De pretos e indígenas", comentou.
P.Stevenson--AMWN