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Sequestros de ônibus no Rio, a outra face da guerra entre os traficantes e a polícia
Quando a polícia matou um chefe do tráfico do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, no mês passado, criminosos armados cercaram um ônibus, obrigaram os passageiros a descer e incendiaram o veículo em plena avenida.
"Eles entraram e pediram pra eu tirar os passageiros e pegaram fogo. Foi muito rápido", relatou à AFP o motorista Márcio Souza, de 48 anos, ainda em choque. "Uma sensação horrível, eu não desejo isso pra ninguém."
A cena não é exceção nesta cidade de quase sete milhões de habitantes e um dos destinos turísticos mais visitados do mundo.
Em retaliação às ações da Polícia Militar contra facções fortemente armadas, como o Comando Vermelho, criminosos tomam ônibus em ruas ou avenidas próximas aos acessos das favelas e os posicionam atravessando a via, a fim de impedir a passagem das forças de segurança.
Além disso, semear o caos na cidade dessa forma é uma demonstração de força.
Foi o que ocorreu durante a megaoperação policial de outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha, a mais letal da história do país, com mais de 120 mortos: mais de uma centena de ônibus foram transformados em barricadas.
- Profissão de risco -
João, pseudônimo de um motorista de 35 anos e 15 de profissão, recentemente teve seu ônibus sequestrado.
Em Madureira, Zona Norte, criminosos em uma moto o cercaram, o agrediram, tomaram as chaves e jogaram gasolina no veículo. A polícia chegou a tempo de evitar o incêndio.
"O terror é muito grande. Na hora, a gente só pensa na família, nos filhos, porque a gente pensa que o pior vai acontecer", conta esse pai de duas meninas. "Minha família me apoia, mas, ao mesmo tempo, está em casa, apreensiva, com medo se eu vou chegar em casa bem, são e salvo."
Quase 200 motoristas foram afastados temporariamente em 2025 por estresse, medo de trabalhar ou ataques de pânico, disse à AFP Paulo Valente, porta-voz da Rio Ônibus, entidade que reúne as empresas operadoras do Rio, que empregam 14 mil motoristas.
Nesse período, 254 ônibus foram usados como barricadas, mais do que o dobro do ano anterior. A sensação de insegurança se estende também entre os usuários.
"Eu evito andar de ônibus, porque é muito perigoso. A gente passa por várias comunidades e hoje em dia está tendo muita guerra [...] A primeira coisa que eles [os criminosos] fazem é parar os ônibus", queixa-se à AFP, em uma rua do centro, Elisiane, de 43 anos, desempregada, que omitiu o sobrenome por segurança.
No ponto alguns metros adiante, Mônica Correia, cuidadora de idosos de 56 anos, diz que sai de casa três horas mais cedo do que o necessário para se prevenir contra imprevistos.
- "A própria Faixa de Gaza" -
Em outubro de 2023, as imagens de 35 ônibus incendiados correram o mundo. "Parecia a própria Faixa de Gaza", descreveu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre as cenas.
"Às vezes quando um ônibus está utilizado como barricada, mais de 50 ficam parados e outros tantos têm que desviar o itinerário", explica Valente. Cada sequestro tem "um impacto direto na economia", com prejuízos milionários para as empresas, e "na imagem da cidade", lamenta.
Isso prejudica sobretudo os moradores das zonas Oeste e Norte do Rio, as áreas mais pobres. Muitos levam horas para se deslocar até seus trabalhos na Zona Sul da cidade.
Na letal operação de outubro, cerca de 500 mil pessoas não conseguiram completar suas viagens. Comércios fecharam, trabalhos foram suspensos e, na prática, se impôs uma espécie de toque de recolher.
Na tentativa de minimizar esse impacto, as autoridades, por exemplo, avisam com antecedência a Rio Ônibus sobre as próximas operações policiais. A Polícia Militar do Rio não respondeu de imediato aos pedidos de comentários da AFP.
As interrupções no transporte afetam também as crianças e adolescentes, com quase 190 mil estudantes que não conseguiram chegar à escola entre 2023 e meados de 2025, segundo um estudo recente.
"Noventa e cinco por cento das escolas foram afetadas em algum momento. Isso mostra que a experiência da violência armada atravessa a vida de toda a população do Rio de Janeiro. É gravíssimo", afirma à AFP Maria Isabel Couto, diretora de dados do instituto Fogo Cruzado, coautor do estudo.
Couto adverte que a responsabilidade é compartilhada: "O controle territorial armado tem um impacto muito significativo nessa mobilidade interrompida. Mas o Estado não pode se esconder atrás disso, porque tem um papel na produção dessas violências e dessas desigualdades."
F.Dubois--AMWN