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Ex-crianças-soldado aprendem ofícios para reconstruir a vida na República Centro-Africana
Em uma sala de aula em Bria, na República Centro-Africana, ex-crianças-soldado aprendem a costurar. É uma forma de ajudar adolescentes de 14 a 17 anos a superar a violência que sofreram nas mãos dos numerosos grupos armados do país.
"Não é fácil ensiná-los. Alguns ainda carregam essa violência dentro de si. Outros continuam muito estressados", relata Christophe Yonaba, professor da organização beneficente Esperance nesta região do leste do país.
"Às vezes ficam sentados em silêncio", diz sobre seus aprendizes de alfaiate.
"De repente ficam inquietos, como se travassem por dentro", acrescenta.
O leste da República Centro-Africana, cujo subsolo é rico em diamantes, vem sendo devastado por anos de conflito armado.
"Todos esses adolescentes foram, em algum momento, capturados por grupos armados", afirma Yonaba, de 53 anos.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 2 mil jovens centro-africanos ainda estão nas mãos dessas forças.
No auge da guerra civil, que se estendeu de 2013 a 2018, cerca de 20 grupos atuavam na região. Esse número caiu para 14 graças aos acordos de paz e aos programas de desarmamento.
Os grupos armados continuam controlando certas áreas do leste, especialmente na fronteira com o Sudão e o Sudão do Sul.
Desde o fim do ano passado, os combates entre o Exército e os rebeldes se intensificaram na região.
O conflito deslocou dezenas de milhares de civis, em sua maioria mulheres e crianças, dentro do país e para a vizinha República Democrática do Congo.
- Trauma do passado -
Awa - a AFP alterou os nomes de todos os menores nesta reportagem - tinha 14 anos quando foi sequestrada pela União pela Paz na República Centro-Africana (UPC), um dos maiores grupos rebeldes.
Ela ficou detida por cerca de três meses.
Sentada na parte da frente da sala de aula de Yonaba, onde máquinas de costura substituem as carteiras tradicionais, evita falar do passado e prefere se concentrar no presente.
"Hoje me sinto bem. Gosto do que faço aqui. Há outras crianças que tiveram experiências semelhantes à minha. Nós nos ajudamos mutuamente no trabalho", conta a jovem.
Ela também afirma estar feliz por viver agora "uma espécie de vida normal".
Amadou, de 16 anos, foi treinado como padeiro pela ONG e agora faz pão e rosquinhas todas as manhãs em um forno tradicional em sua aldeia. Ele passou um ano e meio nas fileiras da UPC.
"Não pediam que usássemos armas, mas estávamos lá como serventes. Fazíamos todas as tarefas mais pesadas e não descansávamos. Falavam conosco de forma grosseira e dura", diz, lidando com lembranças dolorosas que voltam à tona.
- Aumento da demanda -
Falar da violência do passado pode ser traumático.
Rachelle, que aprende sobre pecuária com a Esperance, conta que foi usada como escrava sexual quando tinha 14 anos. A situação durou um ano.
"Fui obrigada a fazer coisas e tive que fazer, caso contrário haveria consequências", relata com coragem, mas sem querer entrar em mais detalhes.
No entanto, as lembranças a atormentam. Ela se pergunta sobre sua mãe, sequestrada ao mesmo tempo que ela e de quem nunca mais teve notícias.
A Esperance, financiada em parte pelo Unicef, ajudou 52 jovens a encontrar uma vocação e um emprego no ano passado. A organização oferece apoio psicológico além de formação profissional.
Os programas recentes de desarmamento contribuíram para aumentar a demanda por seus serviços.
"Antes recebíamos uma ligação por mês. Agora é toda semana", relata Karl Malone, responsável por identificar novos casos de crianças-soldado na região de Bria.
"Este ano recebemos financiamento suficiente para ajudar 100 crianças. Mas há pelo menos 117 que precisam de ajuda. E não conseguimos atendê-las", lamenta.
Como outras organizações humanitárias, a Esperance é afetada pela redução do financiamento internacional, especialmente da USAID, a agência americana de desenvolvimento, desmantelada pelo presidente Donald Trump pouco depois de retornar ao poder.
M.Thompson--AMWN