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'Ouro de sangue': como grupos armados e guerrilhas tomaram controle da mineração na Venezuela
O governo da Venezuela aprovou, sob pressão dos Estados Unidos, uma reforma do setor mineiro para atrair capitais privados e empresas estrangeiras. Mas se depara com um problema grave: grande parte das áreas ricas em minerais do país está sob duro controle de grupos armados e guerrilhas.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas também detém grandes quantidades de ouro, diamantes, bauxita, coltã e terras raras.
A atividade se concentra principalmente no Arco Mineiro, localizado no centro do país, e ao sul, nos estados de Bolívar e Amazonas.
Estas áreas são controladas por grupos armados conhecidos como "sindicatos", que impõem sua lei pela força. São máfias e guerrilhas colombianas deslocadas para a Venezuela.
"É um ouro de sangue que não chega a ser identificado como tal", explica Lisseth Boon, autora de "Oro Malandro", uma investigação sobre a mineração ilegal na Venezuela.
O medo é palpável nestas regiões, cujos habitantes denunciam extorsões constantes. Os sindicatos exigem quantias em dinheiro em troca de proteção contra a criminalidade gerada por suas próprias organizações.
"Os sindicatos controlam tudo, faz parte do dia a dia. Não se pode falar de certos assuntos", disse sob anonimato à AFP uma moradora da região.
- Fabio: um Pablo Escobar -
Estes grupos aplicam suas próprias normas. Em algumas áreas, estabeleceram tribunais informais que resolvem conflitos e crimes, desde infidelidades conjugais até roubos e assassinatos. As sanções incluem multas, espancamentos e até mutilações ou torturas.
Alguns moradores consideram que os criminosos que controlam a região "pacificaram" determinados locais.
Antes, "se você conseguia uma pepita de ouro grande, outros garimpeiros podiam até matar você para roubá-la", relatou sob anonimato um morador de El Dorado.
Esta localidade está sob o controle de Fabio, um "pran" (chefe do crime) que, como Pablo Escobar na Colômbia, conta com o apoio da população.
"Não posso dizer nada (de ruim) sobre ele. A economia parece um pouco mais estável e a segurança também", afirma o homem.
O morador contou que Fabio ajuda os doentes, reforma quadras esportivas, asfalta ruas e colabora economicamente com pessoas em vulnerabilidade e instituições.
Segundo o relatório "A exploração do ouro na Venezuela: devastação, caos e corrupção", da ONG "Transparencia" (2025), "os grupos irregulares vinculados ao chavismo" controlam 20% da produção de aproximadamente 68 toneladas que são extraídas anualmente.
A ONG estima que 66% dos cerca de 5,5 bilhões de dólares (27,7 bilhões de reais) gerados pela exploração estejam sob o controle de "alianças estratégicas com a elite política", empresas mistas público-privadas com limites difusos.
Desde 2016, "a produção de ouro aumentou, mas não a arrecadação para o Estado", acrescenta a ONG.
- "Controle absoluto" -
Os grupos começaram a exercer controle sobre as minas e a atividade mineira após a nacionalização em 2011, quando o falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013) "suspendeu todas as concessões das multinacionais mineradoras", segundo Boon.
Os sindicatos surgiram após a "ausência de controle" e estabeleceram "uma distribuição territorial das minas", um resultado de confrontos armados com dezenas de mortos, acrescentou a jornalista.
Boon cita uma "governança criminal" com acordos entre sindicatos e o Estado.
"É isso que explica que uma área que está totalmente militarizada e onde supostamente há presença do Estado esteja controlada por estes grupos criminosos nas minas", analisou.
Os sindicatos desenvolveram "um controle bastante profundo destes territórios", afirmou à AFP uma pesquisadora da Insight Crime.
O controle destas organizações também recai sobre a "vida cotidiana" dos moradores e povoados mineiros, enfatizou Boon.
Segundo a jornalista, será necessária uma enorme vontade política para extinguir este "padrão de escravidão moderna".
O.M.Souza--AMWN