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Medida antimigratória de Trump provoca choro na fronteira México-EUA
Aos prantos, Margelis Tinoco diz não saber o que fará da vida após a decisão do presidente americano, Donald Trump, de cancelar um programa que permitiu a quase um milhão de migrantes agendar audiências de asilo para entrar legalmente nos Estados Unidos.
Tinoco, uma colombiana de 48 anos, que emigrou da Venezuela com seu marido e um filho, soube da suspensão na segunda-feira (20), dia da posse de Trump, enquanto se dirigia para sua audiência em um porto fronteiriço da mexicana Ciudad Juárez (norte).
Ela soube da notícia quase ao mesmo tempo em que Trump era empossado para seu segundo mandato, prometendo uma guerra sem trégua contra a migração ilegal e desativando o aplicativo móvel CPB One, pelo qual as audiências eram agendadas.
"Veja o que diz!", expressou a mulher, apontando para a tela de seu celular, onde se lia: "As audiências existentes programadas através do CBP One não são mais válidas".
"Não sei mais o que vai ser da minha vida", afirmou Tinoco, usando gorro, casaco e luvas de lã para se proteger das temperaturas geladas.
Trump declarou a área da fronteira em "emergência" para deter "toda entrada ilegal", ao mesmo tempo em que prometeu deportar "milhões de estrangeiros criminosos".
"Tenha compaixão e nos deixe atravessar, nos dê um apoio, nos apoie porque vivemos (...) seis meses de sofrimento", suplicou a Trump esta colombiana, tão arrasada com a notícia que se ajoelhou em frente a um poste de metal.
Tinoco se referia ao tempo que ela passou viajando desde que saiu da Venezuela.
O aplicativo foi habilitado pelo ex-presidente democrata Joe Biden e conseguiu reduzir as travessias ilegais, frequentemente coordenadas por traficantes de pessoas.
Segundo o governo americano, no ano fiscal encerrado em setembro passado, as autoridades registraram 2,1 milhões de flagrantes de migrantes em situação irregular na fronteira sul, frente aos quase 2,5 milhões do período anterior.
- Incerteza -
A frustração se espalhou entre os migrantes em Ciudad Juárez e Tijuana, que tinham conseguido agendar audiências após várias tentativas e viagens longas e perigosas de seus países, de onde saíram fugindo da pobreza, da violência ou de governos autoritários.
"Agora não sabemos o que vai acontecer", comentou, desconcertado, Antony Herrera, um venezuelano de 31 anos, que tinha audiência agendada para a segunda em Tijuana (noroeste), junto com sua esposa e três filhos.
Herrera faz parte dos mais de sete milhões de venezuelanos que deixaram seu país desde 2024 devido à crise que alcançou um novo pico com a questionada reeleição do presidente Nicolás Maduro e que poderia se aprofundar com a volta de Trump.
"Sinto que não nos querem mais lá (...) Tampouco posso esperar que simplesmente tenham misericórdia conosco, é melhor que nos digam já se vai haver uma oportunidade ou ver o que faremos", disse, também em Tijuana, outro venezuelano de 25 anos, que se identificou apenas como Jorge.
Autoridades do governo da Baixa Califórnia, onde fica Tijuana, ofereceram trasladar para albergues os migrantes que tiveram cancelada a sua audiência no CBP One. No entanto, alguns migrantes recusaram a proposta.
"Eu vou ficar aqui, esperemos que com a bênção de Deus, vou passar", disse um homem que se identificou como Manuel, de 37 anos, originário do Equador.
Em seu discurso de posse, Trump anunciou que vai restabelecer seu programa "Fique no México", mediante o qual os migrantes gerenciavam suas solicitações de asilo a partir do país vizinho.
Mas para isso, precisa do acordo do México, seu parceiro no tratado comercial T-MEC, ao qual ameaça com tarifas alfandegárias.
No primeiro mandato de Trump, o governo mexicano aceitou receber deportados de outras nacionalidades em troca de o republicano retirar suas ameaças tarifárias.
Na segunda-feira, antes da posse do presidente americano, a mandatária mexicana, Claudia Sheinbaum, defendeu os feitos do CBP One e reiterou que o México receberá seus nacionais deportados, sem mencionar como vai proceder com os outros estrangeiros expulsos dos Estados Unidos.
O governo do estado fronteiriço de Tamaulipas informou, por sua vez, que tem abrigos prontos para os mexicanos repatriados.
- "É preciso seguir em frente" -
Enquanto isso, ignorando as advertências de Trump, centenas de migrantes partiram, na segunda-feira, da mexicana Tapachula (sul, na fronteira com a Guatemala) com a intenção de chegar aos Estados Unidos.
A pé, com bagagens precárias e em alguns casos, empurrando seus filhos em carrinhos, os migrantes saíram em caravana de madrugada. No geral, estas mobilizações buscam pressionar as autoridades mexicanas a expedir permissões para transitar por seu território.
"Estou um pouquinho assustado porque com tudo o que lutamos, com todo o sacrifício que fizemos, é muito duro que nos fechem as portas", disse Jefferzon Celedón, um venezuelano de 24 anos.
Mas, "é preciso seguir em frente", disse, por sua vez, Leonel Delgado, um venezuelano de 42 anos, sem perder a esperança.
P.Costa--AMWN