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Kast e Jara, o ultradireitista e a esquerdista que disputam o poder no Chile
O segundo turno das presidenciais no Chile será protagonizado no domingo (14) por dois polos opostos: Jeannette Jara, comunista moderada de origem humilde que representa uma coalizão de esquerda, e José Antonio Kast, ex-deputado de extrema direita e devoto católico que promete deportar migrantes irregulares em massa.
Embora Jara tenha vencido Kast no primeiro turno em 16 de novembro, as pesquisas indicam que ele poderia vencer a segunda votação com ampla maioria ao angariar apoios de outros candidatos conservadores.
- Kast, contra migrantes sem documentos -
Kast, de 59 anos, é casado e pai de nove filhos. Ele defendeu a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e se opõe ao aborto, mesmo em casos de estupro, à pílula do dia seguinte, ao divórcio e ao casamento homoafetivo.
De temperamento calmo, afirma ser um democrata e evita os exageros de outros líderes da extrema direita com quem é comparado, como Jair Bolsonaro ou o argentino Javier Milei.
"Ele é visto como muito sóbrio, muito pragmático, muito pausado e muito calmo em comparação aos demais", diz à AFP a jornalista Amanda Marton, uma das autoras do livro "Kast, la ultraderecha a la chilena" (Kast, a ultradireita à chilena, em tradução livre).
Diante da crescente preocupação dos chilenos com o aumento da insegurança e da migração, propõe uma luta implacável contra o crime por meio da deportação dos 330.000 migrantes irregulares que vivem no país, aos quais culpa pelo aumento da criminalidade.
Ele reconheceu possuir um revólver de cinco tiros e quer aumentar o poder de fogo da polícia. Mantém uma contagem regressiva para concretizar seu plano de expulsão dos estrangeiros sem documentos, caso assuma o cargo em 11 de março de 2026. "Se não saírem voluntariamente, iremos buscá-los" para expulsá-los, afirma.
É o mais novo de 10 filhos de um casal de alemães que emigrou para o Chile. Seu pai foi soldado do Exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e, no Chile, fundou um próspero negócio de embutidos.
Foi deputado por 16 anos. Em 2016, deixou o União Democrata Independente (UDI), no qual militou por décadas, por considerar que o partido havia abandonado os princípios conservadores que o inspiravam.
Em 2019, fundou o Partido Republicano, que lidera com uma mistura de "simpatia pessoal" e um "controle rígido", explica à AFP Javiera González, coautora do livro "Kast, el mesías de la derecha chilena" ('Kast, o messias da direita chilena', em tradução livre).
"É uma figura muito de grupo fechado", complementa a jornalista Lily Zúñiga, que trabalhou com ele na UDI.
Mara Sedini, porta-voz de sua campanha, defende seu caráter. "Com as coisas que precisam de teimosia, ele é teimoso", mas também é capaz de "flexibilizar e aprender".
- Jara, uma comunista moderada -
Embora milite no Partido Comunista desde os 14 anos, Jeannette Jara faz parte de sua ala mais liberal e crítica. Ela recebeu a nomeação governista nas primárias e representa uma coalizão de nove partidos de centro-esquerda.
"Ela se apresenta como dissidente", diz à AFP a jornalista Alejandra Carmona, autora da biografia "Jeannette".
Durante a campanha, enfrentou publicamente a cúpula do PC devido à sua visão crítica sobre Cuba e Venezuela, que não considera democracias.
A origem popular de Jara contrasta com a elite da política chilena. "Pela primeira vez (...) uma pessoa que vem dos setores populares pode chegar a governar", disse a própria Jara à AFP antes do primeiro turno.
Ela nasceu há 51 anos em El Cortijo, bairro pobre no norte de Santiago, onde viveu com os avós até a adolescência "em uma meia-água (casa com telhado de única queda)", segundo contou.
Trabalhou como colhedora de frutas e caixa, antes de ingressar na universidade. Casou-se aos 19 anos enquanto ainda estudava e ficou viúva aos 21, após o suicídio do marido. Casou-se novamente, teve um filho, divorciou-se e atualmente está em um relacionamento.
É formada em administração pública e direito. Seu salto para a política ocorreu durante o governo de Boric, que a nomeou ministra do Trabalho. No cargo, ganhou notoriedade ao impulsionar a redução da jornada semanal de trabalho de 45 para 40 horas e a reforma da previdência privada.
"Ela entende que, para alcançar acordos, é preciso ir além de suas próprias convicções", diz à AFP Darío Quiroga, seu principal assessor no primeiro turno.
Porém, não teme ser drástica. Em 2023, em plena discussão da reforma da previdência, demitiu o então subsecretário do Trabalho, Christian Larraín, que mais entendia do tema, devido a denúncias de assédio sexual.
Ela propõe aumentar o salário mínimo para quase 800 dólares (cerca de 4.330 reais), quase 250 a mais que o atual, fortalecer os direitos trabalhistas e aumentar a produção de lítio.
O.Johnson--AMWN