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Argentina em greve geral contra reforma trabalhista de Milei
A greve geral desta quinta-feira (19) contra a reforma trabalhista promovida pelo presidente argentino Javier Milei teve uma adesão "muito significativa", segundo fontes sindicais, enquanto avança o debate no Congresso, onde foram registrados confrontos entre manifestantes e a polícia.
A reforma, qualificada de "regressiva e inconstitucional" pela principal central sindical argentina, reduz as indenizações, estende a jornada de trabalho para 12 horas e limita o direito de greve, entre outros pontos.
Seu debate na Câmara dos Deputados começou pouco depois das 14h locais (mesmo horário de Brasília) e está previsto que se estenda durante a noite.
Sindicatos e organizações de esquerda se concentraram em frente ao Congresso, onde, à tarde, foram registrados confrontos entre manifestantes e polícia que deixaram cerca de uma dezena de detidos, segundo constataram jornalistas no local, inclusive da AFP.
Os incidentes envolveram dezenas de pessoas em uma mobilização que havia começado ao meio-dia de forma pacífica e da qual participaram milhares de manifestantes.
A maioria dos manifestantes já havia deixado o local quando garrafas e pedras foram lançadas contra o cordão policial, situado atrás de barreiras metálicas que bloqueavam o acesso à sede do Legislativo.
As forças de segurança responderam com canhões de água e gás lacrimogêneo.
A reforma trabalhista é uma das iniciativas de fundo que Milei busca aprovar na segunda metade de seu mandato, amparado por uma composição muito mais favorável no Congresso depois de sua vitória nas legislativas de outubro e pelo êxito na redução da inflação a um terço em dois anos (32% em 12 meses).
"Esta reforma piora a situação do trabalho", disse à AFP Amílcar La Cueva, metalúrgico de 55 anos, na manifestação em frente ao Congresso.
O governo afirma que a reforma ajudará a reduzir a informalidade, que atinge mais de 40% do mercado de trabalho, e a criar postos de trabalho graças a uma redução dos encargos tributários para o empregador.
- Adesão -
A medida de força teve "níveis de participação nunca antes vistos neste governo", disse à emissora Radio con Vos um dos líderes da central sindical CGT, Jorge Sola.
Mas várias linhas de ônibus não acataram a convocação à greve e funcionaram com algumas unidades. À medida que o dia avançou, muitos comércios abriram, apesar da falta de funcionários e dos poucos clientes, com um ritmo de fim de semana.
"Foi decidido que viesse apenas o encarregado, que sou eu, e o dono me facilita a ida e volta", disse à AFP Carlos Totta, de 55 anos, à frente de uma unidade de uma rede de açougues.
Esta é a quarta greve geral em dois anos de mandato de Milei, que está nos Estados Unidos para a instalação do "Conselho de Paz" de seu aliado Donald Trump.
No centro da capital, bancos e instituições financeiras permaneceram fechados.
Cerca de 255 voos da estatal Aerolíneas Argentinas foram reprogramados, afetando cerca de 31 mil passageiros. O saguão do aeroporto metropolitano de Buenos Aires estava quase deserto e os aviões na pista, observou a AFP.
Também aderiram os trabalhadores portuários, que paralisaram embarques em terminais como o de Rosário, um dos maiores portos agroexportadores do mundo.
O chefe de gabinete da Presidência, Manuel Adorni, descreveu a greve como "extorsiva".
"Não há nada mais extorsivo e contra a liberdade e a democracia do que o que estão fazendo os sindicalistas [...] A única coisa que fazem é complicar a vida do trabalhador", criticou.
Um polêmico artigo que reduzia à metade do salário a remuneração durante períodos de doença foi eliminado pela base governista, que busca aprovar a reforma antes de 1º de março, quando Milei fará seu discurso perante o Congresso para abrir o ano legislativo.
- Demissões e mobilização -
Em vários acessos à capital argentina, pequenos grupos de manifestantes dificultaram o trânsito em repúdio à reforma.
A greve ocorre em um contexto de queda da atividade industrial, com mais de 21 mil empresas fechadas nos últimos dois anos e a perda de cerca de 300 mil postos de trabalho, segundo fontes sindicais.
O caso mais recente é o da Fate, a principal fábrica de pneus da Argentina, que, na quarta-feira, anunciou o fechamento de sua planta em Buenos Aires e a demissão de mais de 900 trabalhadores, alegando queda de competitividade devido à abertura das importações.
P.Stevenson--AMWN