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Governo Trump prepara desapropriações na fronteira para erguer seu muro
O governo de Donald Trump deu cinco dias para a professora Nayda Álvarez decidir se permite que um muro fronteiriço atravesse seu jardim. Se não aceitar, afirma, sua casa na margem do rio Grande, no Texas, será desapropriada.
O presidente republicano fará, nesta terça-feira (24) no Congresso, seu Discurso sobre o Estado da União, em um primeiro ano de governo marcado por medidas anti-imigração e planos para reforçar a fronteira sul dos Estados Unidos com o México.
Em Laredo, no Texas, cidade onde seus mais de 250 mil habitantes são majoritariamente hispânicos, a comunidade cresceu ao longo da margem do rio Grande, fronteira natural entre os dois países.
Casas, parques, trilhas para corrida ou ciclismo, áreas de pesca e até um cemitério familiar ficam na margem, sem muros.
Em fevereiro, ao menos 60 proprietários receberam uma carta do governo federal com o teor: "Aviso de interesse: Propriedade próxima à construção de projetos fronteiriços".
A casa de madeira do americano Antonio Rosales Jr., de 75 anos, fica nessa área: "Recebemos uma carta do governo dizendo que vão derrubar parte da minha casa e que tenho cinco dias para assinar os papéis", lamenta.
Para Édgar Villaseñor, ativista do Centro de Estudos Internacionais do Rio Grande, "o problema em Laredo e em todo o sul do Texas e em todas as propriedades ribeirinhas é que estão realizando uma apropriação massiva de terras".
O governo planeja construir um "muro inteligente" ao longo de seus mais de 3 mil km de fronteira com o México. Um terço da extensão já tinha muros antes do segundo mandato de Trump.
O plano prevê mais muros físicos ou, dependendo do setor, barreiras aquáticas, estradas de patrulhamento e tecnologia de detecção.
"Para alcançar o controle operacional da fronteira, a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) deve, em conformidade com a lei, construir a infraestrutura física necessária", detalha um porta-voz da entidade à AFP.
Por isso, "estão em processo de contatar os proprietários de terrenos como parte do processo de aquisição dos terrenos necessários para o acesso e/ou a construção do muro".
- As opções -
"No primeiro ano do presidente Trump no cargo, alcançamos a fronteira mais segura na história dos Estados Unidos", afirmou no início de fevereiro a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem.
Janeiro foi o nono mês consecutivo sem liberação de "imigrantes ilegais" em seu território, sustentou Noem, que recentemente publicou uma foto sua assinando um contrato de compra de aço para construir o muro.
"Esse muro passaria pelo meu jardim", diz Álvarez, de 54 anos, em La Rosita, comunidade de cerca de 300 habitantes, 140 km a sudeste de Laredo.
O documento, datado de 13 de fevereiro, apresenta três opções: "Dão mil dólares para permitir o acesso à sua propriedade e que façam o que têm que fazer, permitem negociar um contrato de compra ou servidão com o governo ou, se não aceitar, desapropriam", explica. Ela ainda avalia o que fazer.
Em Laredo, a organização de Villaseñor apoia os afetados para que se informem antes de aceitar ou para se defender. Ele explica que alguns proprietários, por pressão, temor ou desconhecimento, assinaram, mas que a maioria se opõe.
- Danos no rio -
O principal parque da cidade de Eagle Pass, 180 km a noroeste de Laredo, foi militarizado em janeiro de 2024. Há boias e o acesso ao rio foi bloqueado com cercas e arame farpado. Isso arruinou o negócio de Jessie Fuentes, de 65 anos, que oferece passeios de caiaque.
A prioridade do governo "é apenas a segurança. Não se preocupam com o fluxo da água, não deixam que os animais venham ao rio buscar água nem que a flora e a fauna prosperem. Tudo está morto atrás de mim", diz, diante de uma cerca que bloqueia o acesso ao rio.
Perto dali, na localidade de Quemado, o governo Trump ergueu muros durante 2025. Ao pé da muralha observam-se as tumbas de migrantes cujos corpos foram encontrados na área nos últimos anos, a maioria sem identificação.
Para Villaseñor, a narrativa de que os migrantes vêm causar danos não é verdadeira. "A necessidade do muro é muito falsa. Quem diz isso são pessoas em Washington D.C. Quem vive ao longo do rio não teme nada".
Em Laredo, Rosales Jr. teme ficar sem casa. "Vai ser estranho para nós irmos embora depois de tantos anos, mas o governo é o governo e pode passar por cima".
F.Dubois--AMWN