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Paquistão bombardeia Cabul após declarar 'guerra aberta' contra governo talibã do Afeganistão
O Paquistão bombardeou, nesta sexta-feira (27), várias cidades do Afeganistão, incluindo a capital Cabul, e declarou "guerra aberta" ao país vizinho, em um agravamento da crise após vários dias de confrontos.
"Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês", afirmou o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, na rede social X.
Poucas horas depois, o porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, expressou, em uma entrevista coletiva, o desejo de que "o problema seja resolvido por meio do diálogo".
Durante a manhã, jornalistas da AFP ouviram explosões e viram caças sobrevoando Cabul e Kandahar, uma grande cidade do sul do Afeganistão, país governado pelos talibãs desde que retornaram ao poder em 2021.
As relações historicamente cordiais entre os países vizinhos sofreram um abalo nos últimos meses, com confrontos esporádicos.
O Paquistão, uma potência nuclear, acusa as autoridades talibãs de oferecerem cobertura a militantes armados que lançam ataques contra seu território, o que o governo do Afeganistão nega.
Em Genebra, a presidente da Cruz Vermelha, Mirjana Spoljaric, fez um forte apelo pela desescalada.
Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse estar "profundamente preocupado com a escalada de violência" e pediu o "cessar imediato das hostilidades" para voltar à "via diplomática", de acordo com seu porta-voz.
Arábia Saudita e Catar estão trabalhando para deter os confrontos entre Paquistão e Afeganistão, indicou à AFP uma fonte que acompanhava as negociações nesta sexta-feira.
Perto da importante passagem fronteiriça de Torkham, um jornalista da AFP observou disparos de artilharia a partir das 9h30 (2h00 de Brasília) desta sexta-feira.
Os combates alcançaram o campo de Omari, que abriga os repatriados afegãos perto do posto fronteiriço.
"As crianças, as mulheres e os idosos correram", disse Gander Khan, um repatriado de 65 anos, em pé diante de várias tendas.
"Vi sangue, (os tiros) feriram duas ou três crianças e duas ou três mulheres", declarou à AFP.
- "Todos foram embora" -
Zarghon, um repatriado de 44 anos que revelou apenas o primeiro nome, afirmou que duas ou três crianças desapareceram em meio ao pânico.
"Alguns deixaram seus documentos (...) Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora", contou à AFP.
Na noite de quinta‑feira, as forças afegãs lançaram uma ofensiva na fronteira contra as tropas paquistanesas em resposta, segundo Cabul, aos bombardeios paquistaneses do fim de semana passado.
Preocupados, Irã e China se apresentaram como possíveis mediadores do conflito.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã exortou os dois países a “se absterem” de qualquer ação que agrave o seu conflito, respeitando “a integridade territorial e a soberania nacional” de cada um.
As autoridades chinesas, por sua vez, instaram “a manter a calma”.
- Relações muito tensas -
Desde quinta-feira, os dois países apresentam versões contraditórias sobre a situação.
Segundo o porta-voz afegão Mujahid, as tropas afegãs mataram 55 soldados paquistaneses e capturaram dezenas. Ele disse ainda que as tropas afegãs registraram 13 vítimas.
O tenente-general paquistanês Ahmed Sharif Chaudhry afirmou que "274 membros do regime talibã e terroristas" foram eliminados, contra 12 soldados paquistaneses mortos.
Os números de vítimas divulgados pelos dois países são difíceis de verificar de forma independente.
O bombardeio das forças afegãs ocorreu após vários ataques aéreos paquistaneses no fim de semana passado nas províncias de Nangarhar e Paktia, após "recentes atentados suicidas" no Paquistão.
Desde os combates de outubro, que provocaram mais de 70 mortes dos dois lados, a fronteira terrestre permanece em grande parte fechada, exceto para os afegãos que retornam ao seu país.
Após um cessar-fogo inicial negociado pelo Catar e pela Turquia, várias rodadas de conversações foram organizadas, mas um acordo duradouro não foi alcançado.
O EI Khorasan, considerado um dos braços mais ativos da organização Estado Islâmico, opera nos dois países.
Quando retornou ao poder no Afeganistão, o movimento talibã impôs uma interpretação rigorosa da lei islâmica, o que priva as mulheres e as meninas do direito à educação e ao mercado de trabalho.
burs-je/hmn/arm-erl/dbh/fp/aa/ic/mvv
D.Cunningha--AMWN