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Últimas horas de uma trégua excepcional no sul da Ucrânia
A trégua mais longa da guerra na Ucrânia, negociada pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, e limitada à região de Kherson, expira neste domingo (1º) sem que nenhuma das partes tenha anunciado uma extensão.
A incomum pausa em mais de quatro anos e meio de combates, iniciada na madrugada de terça-feira (27), permitiu a realização de uma missão humanitária à cidade de Oleshky, ocupada pela Rússia desde 2022.
Nenhum dos lados denunciou violações do cessar-fogo desde sua entrada em vigor, no que um parlamentar ucraniano descreveu como “a maior desescalada desde 2022”.
Para os moradores de Kherson, que vivem sob fogo cruzado dos dois lados, a suspensão das hostilidades representou um alívio.
“Temos de aproveitar esse tempo para fazer as coisas”, declarou Volodymyr Omeltchenko, jardineiro de 38 anos que podava roseiras para a chegada do inverno.
O conflito, desencadeado em 2022 pela invasão russa, devastou áreas do leste e do sul da Ucrânia, deixou centenas de milhares de mortos e forçou milhões de pessoas a abandonar suas casas.
Alguns desses deslocados aproveitaram a trégua para retornar a seus lares em Kherson. Foi o caso de Yulia Mayfeld, que não voltava à cidade desde que fugiu, há cinco anos, com os filhos para a região vizinha de Odessa.
“Faz tanto tempo, tanto tempo”, disse ela, entre lágrimas e sorrisos. “Vim apenas para que as crianças pudessem voltar a sentir o que é um lar, essa sensação íntima de lar, o lugar onde nasceram.”
As filhas gêmeas Sofiia e Viktoriia, de nove anos, “não se lembram realmente de como era”, explicou a mãe. Já o filho Pavlo recorda seu último aniversário na cidade, junto dos amigos de infância.
“Sinto muitíssima falta desta cidade”, afirmou o menino de 11 anos, que correu escada acima até seu quarto, ainda cheio de brinquedos.
Neste domingo, a família pretende retornar a Odessa e “encerrar o capítulo de Kherson”, segundo Yulia.
Um oficial militar ucraniano, que falou sob condição de anonimato, manifestou preocupação de que os combates possam ser “piores do que antes” quando a trégua terminar.
Segundo ele, as forças russas, posicionadas na outra margem do rio Dnipro, aproveitaram os últimos dias para concentrar novos efetivos, deslocar reservas de munição e coletar informações sobre posições ucranianas por meio de drones.
- Ataques fora de Kherson -
Fora de Kherson, os combates prosseguiram. A Rússia informou neste domingo que um drone atingiu durante a noite uma “empresa industrial” a leste de Moscou.
Veículos de comunicação ucranianos relataram um ataque contra a refinaria de petróleo de Kstovo, descrita como “uma das maiores refinarias da Rússia, produtora de combustíveis e lubrificantes”.
A Ucrânia tem atacado repetidamente instalações petrolíferas e de gás russas, argumentando que se trata de uma resposta legítima aos bombardeios contra sua infraestrutura energética.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona Kiev a interromper esses ataques, por considerar que eles contribuem para a alta dos preços do diesel. Analistas atribuem esse aumento à guerra envolvendo o Irã.
O Ministério da Energia da Ucrânia anunciou neste domingo novos cortes no fornecimento de eletricidade em todo o país, incluindo Kiev, em consequência dos ataques russos.
Já as autoridades instaladas por Moscou em territórios ucranianos ocupados afirmaram que cinco pessoas morreram em ataques ucranianos desde a noite de sábado. Ambos os lados sustentam que seus ataques não têm civis como alvo.
A Rússia controla atualmente cerca de um quinto do território ucraniano. Os esforços diplomáticos liderados por Washington para pôr fim à invasão seguem paralisados por enquanto. Ainda assim, uma reunião trilateral entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia está prevista para novembro.
Th.Berger--AMWN