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Em Cuba, a paixão pelo balé prevalece sobre a crise
Em Havana, em meio à escassez de transporte e a apagões que duram mais de 20 horas, a bailarina cubana Laura Kamila Rojas ensaia um 'pas de deux' de Dom Quixote, encontrando refúgio em sua arte para lidar com a grave crise energética que assola a ilha.
Solista do Balé Nacional de Cuba (BNC) há um ano, esta bailarina cubana negra, de 25 anos, tímida fora dos palcos, mas imponente sobre eles, vive um momento decisivo em sua carreira, mesmo enquanto a escassez de combustível restringe drasticamente a vida cultural do país.
"Tem sido um pouco difícil", admite Rojas à AFP. "Os apagões, às vezes, tornam impossível descansar, mas eu sempre dou o meu melhor. Eu me levanto, digo a mim mesma que consigo fazer isso e continuo seguindo em frente."
Nascida no coração de Jesús María, um bairro popular de Havana com forte tradição afro-cubana, ela cresceu cercada pela música. Seu pai dirige um grupo folclórico no qual sua mãe já dançou. Muitos esperavam que ela seguisse esse caminho, mas optou, em vez disso, pelo balé clássico.
Todos os dias, ela percorre, da maneira que consegue, os cinco quilômetros que separam sua casa da sede do balé, no bairro de Vedado. Ela acorda cedo para conseguir transporte. "Se fosse preciso, eu iria a pé", afirma.
Devido à escassez de combustível, os ônibus da companhia estão agora reservados exclusivamente para os dias de apresentações.
Os ensaios também foram reduzidos, passando de sessões de dia inteiro para apenas quatro horas diárias, a fim de economizar eletricidade e dar tempo aos bailarinos para retornarem para casa.
A privação de sono complica ainda mais sua rotina diária: os cortes noturnos de energia tornam impossível o uso de ar-condicionado — ou mesmo de um ventilador —, enquanto os mosquitos e o calor do verão cubano se intensificam.
"Mas quando danço, esqueço de tudo... qualquer coisa pode acontecer, mas dançar é a minha vocação", explica ela.
E o público responde.
Apesar do calor e da escassez de combustível, os espectadores chegam de táxi-bicicleta, patinete elétrico ou a pé para as apresentações.
Em Cuba, o balé é parte integrante da vida cultural desde a Revolução de 1959, que democratizou o acesso a ele. Impulsionado por Alicia Alonso (1920–2019), o país desenvolveu sua própria escola e mantém uma das companhias de maior prestígio do mundo, apoiada por um público fiel e conhecedor.
"Você se senta ali assistindo ao balé, bem no meio de Havana, com tantos problemas, é como uma bolha que nos tira da realidade", comenta Teresa Betancourt após assistir a uma apresentação. "É estranho, mas bonito", afirma a professora, de 52 anos.
D.Moore--AMWN