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Ex-modelo acusa caça-talentos francês de recrutá-la para Epstein
A ex-modelo francesa Juliette G. diz que levou anos para entender como acabou em um quarto em Nova York com Jeffrey Epstein, mas agora conta à AFP as "etapas" que a levaram a cair nas mãos desse criminoso sexual.
A mulher de 43 anos é uma das duas ex-modelos que acusaram Daniel Siad, um caça-talentos francês com estreitos vínculos com o falecido financista americano, de preparar o terreno para possíveis agressores.
"Identifiquei várias etapas que me levaram até lá", afirma Juliette à AFP. "Esses homens, por meio da manipulação, vão testando para ver até onde uma jovem vai se submeter", explica.
Para Juliette, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado, tudo começou em 2004, quando tinha 21 anos. Siad, que nega as acusações, aproximou-se dela na Avenida Champs-Élysées, em Paris.
Ela chama essa fase de "seleção do alvo". O caça-talentos perguntou se ela era modelo e se teria interesse em "oportunidades profissionais" nos Estados Unidos. "Acho que estava tentando medir se eu aceitaria sem fazer perguntas demais. E foi o que aconteceu: deixei minhas respostas bem vagas para não parecer problemática", lembra.
Pouco depois, enviaram-lhe uma passagem de avião com destino a Nova York e um endereço na cidade. Não tinha mais informações, mas ficou tranquila quando sua agência de modelos disse que conhecia Siad.
Em Nova York, foi a um endereço na Madison Avenue, onde se encontrou brevemente com Epstein, cujo nome Siad não havia mencionado até então.
O financista seria condenado em 2008 por solicitar sexo a garotas de apenas 14 anos.
- "Em dívida com ele" -
Epstein pediu seu passaporte, o que ela hoje interpreta como a segunda fase do seu recrutamento: a "tomada de reféns". Sem o documento, não podia deixar os Estados Unidos.
O empresário então anunciou que não tinha tempo para vê-la naquele dia, mas lhe deu 120 dólares (594 reais na cotação atual) e disse que ela podia usar sua limusine para ir às compras.
Isso, na opinião dela, foi a terceira etapa. Apesar de não ter pedido aquele dinheiro, agora ela estava "em dívida com ele". "Fiquei envergonhada por muito tempo. Anos depois, cheguei a pensar em devolver o dinheiro", conta.
No dia seguinte, ela voltou ao prédio da Madison Avenue, na esperança de ter uma entrevista profissional. Em vez disso, ele lhe mostrou as instalações, passando por uma academia decorada com "fotos que faziam zoom em partes íntimas do corpo de mulheres".
"Foi um teste sutil de tolerância? Para ver se eu iria embora ou aceitaria estar em um ambiente tão surpreendente?", pergunta-se.
Depois, ele a levou a um quarto. Lá, "o meu alarme interior disparou. Senti necessidade de dizer: 'Vou te avisando: não vou fazer nada'", lembra.
Epstein respondeu que ela não precisava se preocupar, mas que ele precisava ver o corpo dela, incluindo os seios, para poder recomendá-la a agências de modelos, afirma.
"Eu hesitei, mas tinha passado sete horas em um avião e eles haviam pago a minha passagem... Eu fiz", confessa.
- Ficar "em forma" -
Segundo relata, Epstein a apalpou e depois declarou que seu corpo não estava à altura de seus padrões e que precisaria de três meses para ficar "em forma".
O empresário disse que, se ela precisasse de dinheiro, poderia arrumar-lhe trabalho como "escort" (acompanhante) em festas.
Juliette fingiu que pensaria no assunto, mas exigiu que ele devolvesse seus documentos. Epstein procurou entre uns "vinte" passaportes e o devolveu.
A mulher nunca voltou a dar notícias, mas, com seu depoimento, agora busca ajudar os investigadores a identificar os cúmplices do criminoso sexual encontrado morto na prisão em 2019.
Siad, investigado na França, é um de vários franceses acusados de ajudar Epstein a traficar e abusar de mulheres.
No fim de 2020, as autoridades francesas prenderam o agente de modelos Jean‑Luc Brunel, acusado de conseguir mulheres para o bilionário americano. Em 2022, também foi encontrado morto na prisão.
Em março, 15 mulheres pediram a abertura de uma investigação contra Gérald Marie, o antigo responsável europeu da Elite, uma agência de modelos conhecida por representar Naomi Campbell, Claudia Schiffer e Cindy Crawford.
Entre elas, a ex‑modelo sueca Ebba Karlsson acusou Siad de "prepará-la" para Gérald Marie.
- "Poderia chegar tão longe" -
Karlsson, de 56 anos, explica que Siad se aproximou dela na Suécia em 1990. Ela tinha 20 anos. "Era muito talentoso", afirma, descrevendo como ele pressionava uma pessoa para testar sua vulnerabilidade.
"Ele se apresentava como uma espécie de salvador", que prometia transformá-las em "modelos muito famosas". "E elas ficavam presas a ele", explica.
Karlsson viajou com Siad para Mônaco e depois para a França, mas os trabalhos como modelo prometidos nunca se concretizaram. Sem dinheiro, "fui ficando cada vez mais dependente dele".
A mulher conta que, certa noite, em uma casa perto de Cannes, o caça-talentos a estuprou. Nos dias seguintes, disse que tinha encontrado um trabalho para ela na Elite.
Siad, por meio de sua advogada Menya Arab-Tigrine, nega as acusações. A jurista espera que seu cliente não pague "por atos de outros homens que morreram, só porque continua vivo".
Karlsson então se reuniu com Gérald Marie em seu escritório para falar sobre trabalhar para a Elite. "Por que ele está fechando as persianas?", lembra ter pensado.
O agente a elogiou: "Você é tão bonita", "poderia ir tão longe"... E chegou até a mencionar a ideia de ela aparecer em um filme. Mas, de repente, "ele deslizou a mão entre minhas pernas, em direção às minhas partes íntimas", afirma a mulher, que sentiu "todas as forças irem embora".
Karlsson diz que mais tarde foi a um teste na casa dele, onde havia "cerca de dez meninas" às quais pediram que desfilassem sem sutiã. A maioria parecia mais jovem e falava pouco francês ou inglês.
Ela fingiu aceitar o trabalho, mas pegou um avião de volta para a Suécia e nunca retornou. A advogada de Gérald Marie, Céline Bekerman, denuncia "ataques infundados".
Uma investigação por estupro contra seu cliente foi arquivada em 2023, por prescrição dos supostos fatos.
A jurista acusa Karlsson e outras autoras da queixa de ignorarem isso e de estabelecerem "vínculos forçados entre Gérald Marie e casos com os quais ele não tem qualquer relação".
A ex-modelo sueca defende que levanta a voz contra o assédio e os abusos com o objetivo de "parar esse comportamento e ensinar aos jovens" como evitá-los.
P.Martin--AMWN