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Rússia realizará eleições sem suspense sob a sombra da guerra na Ucrânia
A Rússia realiza eleições parlamentares rigorosamente controladas esta semana, consideradas pelo Kremlin um termômetro da opinião pública sobre a guerra com a Ucrânia, que ultrapassa os quatro anos.
Alguns russos estão cansados da estagnação econômica e da escalada dos ataques ucranianos, e muitos temem que Putin lance uma campanha de recrutamento em massa para novos soldados após a votação.
As eleições, que ocorrem de 18 a 20 de setembro, serão as primeiras eleições parlamentares desde que a Rússia lançou a ofensiva contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, embora o país tenha realizado uma eleição presidencial em 2024, na qual Putin foi reeleito.
A votação também ocorrerá nas partes da Ucrânia ocupadas pelas forças militares russas.
A guerra matou centenas de milhares de pessoas, intensificou a censura interna, devastou o leste da Ucrânia e deixou a Rússia sob sanções ocidentais sem precedentes.
Devido à proibição de críticas à guerra, nenhum partido de oposição está nas cédulas. Com isso, o partido de Putin, Rússia Unida, deve garantir a maioria das cadeiras na Duma Estatal (câmara baixa).
Um diplomata europeu disse à AFP que a eleição é "uma farsa", mas também um "ritual que o Kremlin considera essencial" e que gostaria de ver uma alta participação eleitoral.
Mesmo com o resultado "predeterminado", a votação ainda é relevante, observou o cientista político russo Nikolai Petrov.
"Assim como nos tempos da União Soviética, as eleições devem demonstrar a lealdade dos cidadãos", afirmou à AFP.
- Partidos pró-Putin -
Para Putin, que está no poder há 26 anos, é importante "mostrar às elites que ele ainda tem o apoio e a confiança do povo", disse Petrov.
Metade das 450 cadeiras em disputa será decidida em uma votação nacional por blocos partidários, e a outra metade será determinada por distritos individuais.
Apenas os partidos que apoiam Putin e a guerra poderão concorrer às cadeiras na votação nacional: o partido governista Rússia Unida, o Partido Comunista, Rússia Justa, o nacionalista LDPR e o Novo Povo.
O único partido contra a guerra ainda ativo na Rússia, o Yabloko, está proibido de participar.
"É uma escolha sem alternativas", disse Yevdokia, de 18 anos, à AFP em Moscou. Ela queria votar no Yabloko, que defende o fim da guerra na Ucrânia, mas agora apoiará o Novo Povo.
As autoridades têm usado o contexto da guerra para intensificar a repressão a níveis nunca vistos desde a União Soviética.
Todos os rivais de Putin estão presos, exilados ou mortos, como seu principal oponente, Alexei Navalny, que morreu em 2024 em uma prisão russa.
Em Moscou, há poucos indícios de que haverá eleições.
Cartazes de campanha são escassos, com exceção daqueles das autoridades que incentivam a população a votar, com o slogan "Sua voz é a força da Rússia".
- Medo do recrutamento -
A votação servirá como um termômetro do sentimento em relação a uma guerra que matou centenas de milhares de pessoas e afetou a vida dos russos, inclusive daqueles que vivem a milhares de quilômetros da linha de frente.
Nos últimos meses, a Ucrânia intensificou os ataques de longo alcance contra a Rússia em retaliação aos bombardeios russos, o que causou escassez de combustível, danos generalizados e mortes de civis.
O próprio Putin teve que negar rumores sobre supostos planos de mobilizar novas tropas, como o impopular recrutamento de 300 mil reservistas em 2022.
Tatiana Stanovaya, especialista em Rússia do Carnegie Russia Eurasia Center, que é proibido por Moscou, considera uma mobilização como essa improvável.
"Eles se esforçaram muito para convencer os russos a não se preocuparem (...). Eu ficaria muito surpresa se o fizessem", comentou.
No entanto, ela observou que Putin veria sua inevitável vitória como "a confirmação de sua legitimidade (...), a legitimidade de sua guerra".
J.Williams--AMWN