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Cineasta Todd Haynes pede que artistas 'lutem' contra 'ataque bárbaro' de Trump
"Todos os filmes são políticos", declarou à AFP o cineasta americano Todd Haynes, presidente do júri que definirá o vencedor do Urso de Ouro da 75ª edição do Festival de Berlim.
O diretor de 64 anos faz um apelo aos cineastas, como todos os cidadãos, para que comecem a "lutar de novo" contra o "ambiente reacionário" após a eleição presidencial de Donald Trump.
"Carol", "Segredos de um Escândalo"... Você competiu em vários festivais, o que sente ao integrar o júri?
"É uma oportunidade para deixar de lado o próprio trabalho. Eu fui bastante rigoroso comigo mesmo, como acredito que os outros membros do júri também foram, não li nada sobre os filmes, apenas olhei rapidamente o nome do diretor (...) Esse tipo de virgindade com o cinema é cada vez mais raro em nossa cultura, saturada de informações. É a melhor homenagem ao próprio filme, porque você não tem expectativas particulares".
Esperava mais reações dos artistas após as primeiras decisões de Trump?
"Não tenho nenhum problema em apontar para Donald Trump, Elon Musk e todo o Partido Republicano e condená-los pelo que está acontecendo, este ataque bárbaro contra as instituições democráticas americanas (...) É um momento atroz em que nos encontramos atualmente, que precisará de toda nossa energia para resistir e voltar a um sistema que, por mais imperfeito que seja, é algo que damos como algo garantido como americanos. Tudo o que consideramos garantido está em perigo".
Os artistas e cineastas têm um papel a desempenhar?
"Todo mundo tem um papel a desempenhar. O cinema é intrinsecamente um subproduto cultural. Mesmo o filme hollywoodiano mais comercial (...) é um reflexo da cultura, inclusive se alguém não percebe (...) Os significados são importantes (...) Infelizmente, já estamos vendo, não necessariamente em Hollywood, mas sim em outros lugares vinculados ao poder das grandes empresas, um abandono diante da administração, que é chocante (...) Temos que ter consciência do perigo".
Acredita que o cinema LGBT, celebrado em Berlim com o Teddy Award do qual você é uma figura de destaque, esteja em perigo?
"Sim, acho que não percebemos do muito que, de repente, está em jogo. Vejo esta campanha odiosa e insensível contra as pessoas trans em particular e as pessoas queer em geral, que é um dos motores da campanha da direita radical que levou Trump ao poder (...) Isso significa que todos devemos começar a lutar de novo por tudo aquilo pelo qual lutamos no passado".
Tem vontade de voltar a fazer filmes políticos, como "O Preço da Verdade" (2019), que denunciava a contaminação da empresa química DuPont?
"Todos os filmes são políticos (...) Quando Rainer Werner Fassbinder, que veio de um ambiente muito político depois de 1968, viu os melodramas de Douglas Sirk em Hollywood, decidiu que as histórias mais relevantes e políticas eram sobre a vida doméstica. Não preciso falar sobre a luta contra a DuPont para ser político".
Vemos especialmente em Berlim cada vez mais grandes atrizes que coproduzem os filmes que protagonizam. Este é o futuro da indústria?
Esperemos que sim. As mulheres, como atrizes e estrelas do cinema, tiveram um papel essencial em Hollywood. Esquecemos que houve uma época, como nos anos 1930, em que o número de filmes protagonizados por mulheres (...) era enorme. Mantinham a indústria em funcionamento, podiam influenciar quais filmes eram feitos (...) As mulheres interpretavam personagens complexos, até cruéis, e não apenas a esposa gentil (...) As lutas antigas são um ponto forte. Apesar das dificuldades no ambiente reacionário atual, também podemos vencer.
Como artista, você considera a inteligência artificial uma ferramenta?
"Não na cultura criativa. É na medicina e no desenvolvimento científico, na minha opinião, onde pode ser mais positiva. A criação é algo profundamente humano, orgânico e desordenado. E um computador não pode reproduzir nem melhorar a desordem da mente criativa".
L.Miller--AMWN