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Chapare, a terra da coca que desafia o governo da Bolívia
A poucos metros de um regimento militar onde soldados montam guarda, dezenas de produtores de coca acampam em protesto, apesar de estar em vigor um estado de exceção que o proíbe: no Chapare bolivano, os movimentos sociais disputam o controle territorial com o governo.
O ex-presidente Evo Morales, foragido da justiça e protegido por moradores que há semanas formam o núcleo mais duro de manifestações contra o presidente de direita Rodrigo Paz, se refugia nesta região de selva e pobre do centro da Bolívia.
O esquerdista Morales anunciou na segunda-feira (22) uma trégua nos bloqueios de estradas que deixaram cidades bolivianas sem alimentos e combustíveis por quase dois meses, em meio à pior crise econômica em quatro décadas.
Mas os manifestantes permanecem em vigília à beira das precárias estradas do Trópico de Cochabamba, conhecido como Chapare e com cerca de 260 mil habitantes, prontos para voltar à ação.
Protegidos do sol sob toldos de lona e munidos de montanhas de pedra para impedir o trânsito, estes trabalhadores da folha da coca - principal motor produtivo da região - mostram cartazes exigindo a renúncia de Paz e recebem o apoio de moradores da área.
"A luta continua até que este maldito governo vá embora", diz à AFP Rosalía Vilca, de 39 anos, enquanto vende o prato típico "salchipapa" na praça do município de Shinahota.
"Que Paz venha, se tiver coragem; aqui vamos nos mobilizar para cuidar do Evito, porque com ele vivemos 14 anos de felicidade", acrescenta, diante de uma ameaça do governo de intervir no Chapare para capturar o ex-mandatário (2006-2019).
Sobre Morales, ex-sindicalista cocalero e primeiro presidente indígena da Bolívia, pesa uma ordem de prisão por um caso de suposto tráfico de menor, que ele denuncia como perseguição.
O Ministério Público o acusa por uma suposta relação com uma adolescente de 15 anos com quem teria tido uma filha enquanto governava, com o consentimento dos pais em troca de benefícios.
- "A vida por Evo" -
A coca é onipresente no Chapare, desde cultivos em comunidades rurais de acesso restrito a estranhos até trechos de estradas ocupadas para a secagem artesanal da colheita ao sol.
A planta é a matéria-prima da cocaína. Mais de 90% do que é produzido na região não passa pelo mercado autorizado, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, embora nem tudo necessariamente vá para o narcotráfico.
Os moradores defendem sua produção para usos herdados de costumes milenares de povos indígenas, como o "chasqueo": mascar folhas de coca para aliviar o cansaço, a fome e o frio.
"Nas cidades dizem que nós, chapareños, somos narcotraficantes, mas não é assim: aqui trabalhamos e também sofremos os bloqueios, embora sejam por uma causa justa", diz Zulma Torres, de 42 anos e trabalhadora da rodoviária de Shinahota.
"No Chapare, estamos dispostos a dar a vida por Evo", adverte, diante das acusações não comprovadas de Paz de que Morales receberia financiamento do narcotráfico.
O ex-mandatário tem sua base de operações políticas em Lauca Eñe, um povoado de 900 habitantes dentro de Shinahota, onde fica a sede das Seis Federações do Trópico de Cochabamba, estrutura sindical dos cocaleros.
Sem policiais à vista, só se pode entrar escoltado pelos assessores de Morales, após atravessar uma barricada de madeira e palha, com torres de vigilância e homens equipados com lanças, escudos de chapa de barril e 'walkie-talkies'.
Nas ruas do povoado, famílias inteiras acampam há meses ao relento como escudo humano para o ex-presidente.
Se alimentam em cozinhas comunitárias, misturam o quéchua com o espanhol e se revezam para montar guarda em pontos de controle.
"Não vou desistir, quem negocia sua sobrevivência não é digno", disse Morales em uma entrevista à AFP na terça-feira (23).
- "Sofremos discriminação" -
Nas estradas do Chapare, lojas improvisadas vendem galões de gasolina a preços exorbitantes: um mercado ilegal favorecido por uma escassez de combustíveis que afeta a Bolívia desde antes dos bloqueios.
"Sofremos discriminação pelo governo central, não servimos para nada e a gasolina já nem chega ao Trópico: compramos na rua por um preço alto e estamos ferrados", diz Nicolás García, um motorista de 52 anos.
Nos últimos dias, os moradores do Chapare também sofreram apagões elétricos, que Morales atribuiu a uma suposta represália do governo.
"Assim, só vão deixar o povo boliviano ainda mais convulsionado, provocam confrontos", diz Mario Flores, de 51 anos, vendedor de verduras de Shinahota.
"Acusam Evo de financiar os bloqueios, mas mesmo sendo camponeses e não tendo estudado, sabemos que a culpa é do governo", disparou.
F.Dubois--AMWN